domingo, 30 de dezembro de 2012

Manfredo Oliveira: Filósofo, graças a Deus

Fonte: http://www.opovo.com.br
Padre Manfredo Oliveira, a maior referência no Ceará no campo da filosofia, diz que filósofos brasileiros não se lêem mutuamente e que a disciplina sofre uma crise de influência numa época de muitas publicações
22/11/1997 28/12/2012 - 08h00


Jornal O POVO, 22/11/1997
Autor: Débora 

ACERVO O POVO
Detalhe da página do Jornal O POVO, publicada em 22/11/1997

Cronemberger

Padre Manfredo Oliveira, a maior referência no Ceará no campo da filosofia, diz que filósofos brasileiros não se lêem mutuamente e que a disciplina sofre uma crise de influência numa época de muitas publicações 

É um contrasenso, mas a filosofia está passando por uma grande crise de influência justamente em uma época em que nunca houve tanta publicação filosófica, tanto congresso, tanta reunião. O padre Manfredo Oliveira, filósofo que virou referência cearense, respeitado no Brasil e no exterior, afirma que a área a qual sempre se dedicou talvez tenha uma certa culpa nesse processo de enfraquecimento. "Certas tendências da filosofia contemporânea se recusam a dar uma palavra a respeito do sentido das construções humanas no mundo, como sendo isso fora da racionalidade", analisa.

Manfredo diz que o Brasil está numa situação relativamente boa em relação à filosofia. Involuntariamente, a ditadura militar forçou uma especialização nos filósofos brasileiros - forçados, na época, a deixar o país. O problema, diz ele, é o descaso com que os filósofos se tratam no Brasil. "Eles não discutem entre si, não se lêem mutuamente", afirma Manfredo. De certa forma, garante, isso tem melhorado diante da articulação de congressos filosóficos.

Nesta entrevista ao Sábado, Manfredo Oliveira fala dos temas que estão dominando os debates filosóficos atualmente, da ética e da relação entre religião e filosofia.

Sábado - Como nasceu a Filosofia? O que é filosofar?

Manfredo Oliveira - A Filosofia nasceu das perguntas que o ser humano faz a respeito de sua vida. De onde é que eu vim, para onde é que eu vou, qual é o sentido disso que eu estou fazendo aqui, que compreensão eu posso ter de todo o conjunto da realidade na qual estou situado. É o esforço de encontrar chaves fundamentais de leitura de toda a realidade. O que estou chamando de chaves fundamentais de leitura, os primeiros filósofos chamavam de princípios ou fundamentos de todas as coisas. 

Sábado - O senhor possui resposta para alguma dessas questões fundamentais?

Manfredo - A humanidade está passando nos últimos anos por mudanças muito profundas. A economia, a organização da sociedade, o questionamento de todo o processo civilizatório da modernidade. Você pode perguntar, o filósofo, a partir de sua filosofia, teria um programa para apresentar à humanidade? Eu diria: Não. Um programa de ação concreto implica também filosofia, pressupostos, que visão eu tenho do universo, do ser humano, da natureza. Dependendo disso é que vou programar minha relação com a natureza, as relações dos seres humanos entre si. Agora, um programa concreto pressupõe, além desses fundamentos, conhecimentos detalhados da realidade que não são mais da competência dos filósofos, mas da competência dos cientistas e das pessoas comuns. A Filosofia não pode ter a pretensão de esgotar todas as esferas do saber humano. Embora ela dê conta da totalidade, ela dá conta só de uma perspectiva, sobre um aspecto, que é o aspecto dos pressupostos. Ela não pode dar conta de detalhes.

Sábado - Quais são os principais temas sobre os quais as discussões filosóficas estão se atendo?

Manfredo - Nós estamos vivendo um momento chamado de reabilitação da ética por causa de uma conjuntura muito específica no nosso processo civilizatório. A modernidade fez avanços fantásticos na esfera do domínio do homem sobre a natureza. Ela juntou ciência, técnica e economia de mercado capitalista e construiu uma civilização que tem, sem dúvida alguma, coisas fantásticas no sentido de que abriu possibilidades de domínio técnico sobre o mundo que é estupendo. Por outro lado, atrofiou, como não pertencendo à esfera da racionalidade, as questões éticas. Então hoje há uma grande reabilitação daquilo que eu chamaria a dimensão da normatividade na vida humana. Ou seja, se perguntar simplesmente não o que eu posso fazer, mas o que devo fazer. Por exemplo, qual é o sentido desse projeto de manipulação universal da natureza? O movimento ecológico, cada vez mais, nos chama a atenção para limites insustentáveis nesse momento. Então isso levanta questões de fundo, que não são só questões da natureza, mas da vida enquanto tal. Obriga a Filosofia a repensar todas as suas questões.

Sábado - Então, a ética está tendo um lugar especial neste contexto?

Manfredo - Sim, principalmente por causa dessa conjuntura que atrofiou a ética. Quando se pensa no problema da ética, não é só a partir da questão da natureza, da possibilidade de destruição da vida, mas muito fortemente também entra a questão do sentido da convivência humana. Nós sabemos que vivemos num mundo simplesmente enlouquecido. Uma sociedade que é capaz de fazer progressos tecnológicos gigantescos e tem milhões de pessoas completamente fora do acesso aos bens primários da vida. Com a própria vida humana ameaçada, a questão da convivência social, do sentido ético da política, como é que você vai pensar as relações entre os diversos países que ainda existem como Estados nacionais, mas existem numa disparidade gigantesca, tanto do ponto de vista econômico como cultural.

Sábado - De que maneira essa questão desafia a Filosofia?

Manfredo - Essas questões desafiam profundamente a reflexão filosófica no sentido de nos perguntar quais deveriam ser os princípios éticos básicos para regular e organizar uma sociedade humana que se possa dizer minimamente racional, que não se reduza a uma racionalidade tecnológica, mas que diga respeito também ao sentido mesmo da vida humana na sua integralidade. Como pensar essas relações universais entre povos em diferentes níveis de desenvolvimento, em diferentes níveis culturais, e até dentro da própria Nação. É o caso do Brasil, que é dividido em dois, pelo menos. Uma parte dele que se encontra cada vez mais ligada, econômica e culturalmente, ao Primeiro Mundo, e a grande maioria que está fora desses padrões civilizatórios. 

Sábado - Qual é a influência da Filosofia nesse processo?

Manfredo - Do ponto de vista puramente factual, acho que estamos passando por uma grande crise da influência da Filosofia. Cada vez mais, em todos os níveis da vida humana, há um processo de cientificação da vida. Para a ciência contemporânea, a Filosofia não significa mais o que significou no passado. Há uma situação meio paradoxal. Por um lado, talvez nunca houve na história da humanidade tanta publicação filosófica, tanto congresso, tanta reunião. Mas se você olha a influência que a Filosofia tem nessas grandes questões... 

Sábado - Por que isso acontece?

Manfredo - De certa forma, a Filosofia também é culpada disso. Certas tendências da Filosofia contemporânea se tornaram incapazes de dizer uma palavra séria em relação a essas questões fundamentais. Há tipos de Filosofia hoje que se reduzem, por exemplo, a estudar os fundamentos puramente lógicos, ou da linguagem do nosso conhecimento do mundo, e se recusam a dar uma palavra a respeito do sentido das construções humanas no mundo como sendo isso fora da racionalidade. Por um lado, a própria Filosofia tem culpa por não ter mais a importância que deveria ter no contexto da sociedade contemporânea, mas por outro isso é decorrência da própria forma de racionalidade que é hegemônica no nosso mundo, que não apela à Filosofia.

Sábado - A Filosofia não é valorizada como deveria?

Manfredo - Acho que a Filosofia se tornou hoje quase que insignificante. No entanto, é o espaço que o ser humano tem, numa sociedade que não é mais religiosa. Veja bem, em uma sociedade anterior a nós, onde a religião articulava o sentido global para a vida humana e a religião era praticamente compartilhada pelas diversas pessoas na sociedade, você tinha um rumo de sentido. Onde é que essas questões últimas e fundamentais da vida humana podem ser debatidas, discutidas, articuladas e pensadas? Exatamente na Filosofia. Portanto, se a Filosofia hoje não tem uma significação muito grande na vida humana, isso é muito grave. O homem está carecendo de uma instância onde ele possa articular de uma forma sistemática essas questões básicas da sua vida.

Sábado - Essa falta de importância da Filosofia não é um contrasenso diante da popularização que ela vem tendo de uns anos para cá?

Manfredo - Veja bem, isso aí também é uma certa produção da mídia. Basta ver, por exemplo, um pensador como o alemão Jürgen Habermas, que publica um livro e amanhã o livro está quase esgotado. Agora, o que existe de mídia também por trás disso... Nós hoje vivemos em uma sociedade bastante complicada, a questão do peso fundamental da informação. Talvez nunca na história da humanidade nós tivemos tanta informação como temos hoje, mas há o perigo de estarmos perdidos numa floresta, num mar imenso de informações e não termos um mínimo de senso dos princípios, das articulações fundamentais, das estruturas fundamentais da vida. Inclusive hoje, para um filósofo, existe essa questão, que tipo de informação eu vou ter? Não posso ter todas. O filósofo tem que se alimentar também de tudo aquilo que as ciências dizem, ele tem que se deixar questionar porque vai exatamente tentar articular os princípios e fundamentos que essas ciências dizem, e precisaria minimamente conhecer essas coisas. Nisso a mídia tem um papel muito grande. Ela vulgariza os conhecimentos científicos, levou a milhões de pessoas coisas que antigamente eram limitadas a determinados grupos de pesquisadores.

Sábado - O senhor tem Mestrado em Teologia e Doutorado em Filosofia. Teologia é o estudo das doutrinas cristãs. Na religião católica, é necessário ter fé para acreditar nos dogmas. A Filosofia busca racionalizar as questões e busca respostas para questões fundamentais. Essas duas ciências possuem afinidades?

Manfredo - Para mim, em última instância, Filosofia é Teologia. Aquilo que os filósofos chamam absoluto é aquilo que as religiões chamam Deus. De entrada, as diferentes confissões religiosas são formas específicas de articular o relacionamento dos seres humanos com aquilo que é o objeto fundamental do trabalho do filósofo, que é o absoluto. Eu não vejo propriamente que a religião pudesse ter coisas irracionais. A religião não pode se contrapor às verdades fundamentais da razão.

Sábado - Algum filósofo discutiu essa relação entre religião e Filosofia?

Manfredo - Esse é um dos problemas básicos de um grande pensador atual, o Habermas. Ele considera a religião como uma etapa importantíssima na evolução da humanidade. Especificamente no cristianismo, foi articulada uma ética que é fundamental para a vida humana. Qual é a ética da religião cristã? A ética da solidariedade, da fraternidade universal, do respeito radical ao ser humano e o respeito relativo à natureza. Essas coisas são indispensáveis para a vida humana, diz ele. Tenha ou não tenha fé, tenho que assumir a partir da razão de uma ética do respeito radical ao ser humano, por exemplo. Agora, diz ele, a religião não argumenta e quando não argumenta, não tem mais lugar na sociedade moderna. Quer dizer, a religião seria, por natureza, dogmática. Eu não acho que é essa a concepção de religião. Religião é a atitude de uma opção livre. Não sou obrigado a reconhecer, por exemplo, em Jesus de Nazaré, uma manifestação especial do absoluto. Eu não sou obrigado a isso. Eu sou convidado, mas não a aceitar alguma coisa irracional. Só posso aceitar, como ser humano, Jesus de Nazaré, como a expressão do absoluto, se descobrir aqui algo que não se contrapõe à minha razão, mas algo que expande, amplia.

Sábado - Como está o Brasil no contexto das discussões filosóficas?

Manfredo - Creio que o Brasil está numa situação relativamente boa em relação à Filosofia. A ditadura militar, contra a sua vontade, terminou contribuindo para modificar substancialmente a situação dos filósofos. Ela expulsou boa parte deles. Eles ficaram estudando e, quando voltaram, estavam filósofos de altíssimo nível. Agora, nós temos um problema muito grave. Não temos uma opinião pública filosófica. Os filósofos não discutem entre si, não se lêem mutuamente. Os diferentes grupos filosóficos brasileiros são ligados a grupos do exterior. É uma coisa impressionante. Não acho normal, por exemplo, que eu publique um livro no Brasil, alguém faça uma recensão desse livro na Europa e não saia nenhuma recensão no Brasil. A gente nota, pelo próprio espírito dos filósofos, que eles não conhecem as coisas publicadas no Brasil. Acho atitude de subdesenvolvido. Agora as coisas estão melhorando, estão sendo organizados congressos. É uma excelente oportunidade para debater. Eu acho que poderia haver muito mais se os filósofos se conhecessem, se lessem.

Sábado - Entre todas as questões debatidas na Filosofia, alguma lhe interessa mais?

Manfredo - Os problemas e desafios da civilização moderna, a partir do movimento ecológico, da física quântica, as questões das desigualdades sociais, hoje a nível global, a tragédia do apartado no Brasil são questões que desafiam fundamentalmente a Filosofia hoje. Essas questões éticas pressupõem aquilo que chamo as questões últimas, ou seja, o sentido global da vida. Vou tomar uma posição específica em relação à ecologia, à natureza, ao ser humano, dependendo do sentido global que tenho de vida. Para mim, a Filosofia tem um cerne, uma disciplina fundamental onde se tenta articular o sentido global de tudo e a partir daí você pode enfrentar as diversas questões específicas, dentre as quais ponho hoje as questões da crise ecológica e da crise social.

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