domingo, 9 de dezembro de 2012

Cagece continua cobrando a conta pela água poluída do açude Colina

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com
09.12.2012

De acordo com a Cogerh, o manancial conta hoje com apenas 7,88% de sua capacidade, que é de 3 milhões e 250 mil m³
Quiterianópolis Na segunda quinzena de abril, quando a reportagem esteve nesta cidade, a situação em relação ao consumo d´água já era crítica, segundo o engenheiro civil Hamilton Claudino Sales, gerente da Unidade de Negócios da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) da Região dos Sertões de Crateús. Na ocasião, ele adiantou que "há um processo em andamento para retirar a cobrança das contas até o fim do mês (abril)". Sete meses depois, para revolta da população, a fatura não foi suspensa.

A água coletada no açude de Quiterianópolis é poluída e esverdeada Fotos: Waleska Santiago

"Quando a gente abre o chuveiro para tomar banho, a podridão invade a casa. O fedor é tão insuportável que aqui em casa ninguém pode se banhar na hora das refeições", denuncia a consumidora Leonor Cordeiro do Nascimento, que reside na Rua Artumira Pires Melo, 413, no Centro.

A dona de casa mostra a conta relativa ao mês de outubro, com vencimento no dia 5 de novembro, no valor de R$ 14,58. "Pode observar que o valor é muito baixo. Antes, pagava cerca de R$35. Por causa da imundície que sai nas torneiras, a gente só consome essa água quando não aguenta mais o calor. O jeito é tomar banho. É uma coisa meio sem sentido. Aqui na cidade, quem quiser se sujar é só ir para debaixo do chuveiro".

Segundo Leonor, a ocorrência de diarreia entre crianças e adultos é comum em Quiterianópolis. "Os casos mais críticos são de pessoas que não têm condição de comprar água mineral ou consegui-la de fonte confiável e acabam bebendo o que sai da torneira. É um risco grande".

A vegetação do Colina está quase toda descoberta, assim como as suas margens, que recebem dejetos de animais e esgotos da cidade

Não é difícil constatar as denúncias. Basta abrir a torneira e observar a olho nu os germes na água, mesmo após o líquido ter passado pela estação de tratamento existente na cidade.

Outro fato comprobatório é o nível do açude Colina, concluído em 1998 e responsável pelo abastecimento da sede de Quiterianópolis. A vegetação, que há sete meses estava encoberta pelas águas, hoje é visível. Segundo a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), hoje o manancial tem apenas 7,88% da sua capacidade total de armazenamento, que é de 3 milhões e 250 mil m ³.

Há sete meses, era mais que o triplo, exatamente 24%. Na verdade, o que resta hoje é muita lama. Nas margens atuais, o lamaçal se mistura às fezes de animais que caminham livremente à procura de água para beber ou de capim. Outro agravante é o fato de não existir saneamento básico na cidade. Muitos esgotos são direcionados para dentro do Colina, o que pode ser facilmente atestado.

"Sem riscos"

O diretor de Operações da Cagece, André Facó, explica que, no caso de Quiterianópolis, a água pode não estar atendendo a alguns requisitos previstos pelo Ministério da Saúde, mas afirma que "não traz riscos à população". Segundo ele, nos últimos três meses, novos filtros foram implantados no local, assim como modificações emergenciais, visando suportar o máximo possível o perigo de seca.

De acordo com Facó, em Quiterianópolis e em outros locais, não há alternativa que não sejam os açudes existentes. "Tentamos adotar algumas medidas para procrastinar o uso desses mananciais o máximo possível.

Segundo o diretor da Cagece, a suspensão do faturamento é feita, principalmente, em relação à qualidade da água. "O sistema de abastecimento tem duas grandes responsabilidades que é colocar água em quantidade e qualidade adequadas".

O diretor destacou também que, quando o faturamento é suspenso em determinados locais, as pessoas passam a utilizar mais do que o necessário, acelerando o risco de colapso. "Para a gente continuar esse faturamento, fazemos consulta à agencia reguladora e por um procedimento interno. Me arrisco a dizer que, se nós tivéssemos suspendido o faturamento nesse local, não teríamos mais esse manancial. É natural. O fator faturamento é uma limitação para o desperdício de água", ressaltou.

A Cagece opera em 150 municípios e outros 24 são atendidos por Serviços Autônomos de Água e Esgoto (SAEEs). Em 12 deles, segundo a Cagece, a situação é "muito critica". Em Salitre, o abastecimento foi suspenso e não há reservas no entorno da cidade. A água só chega agora por meio de carros-pipa.

Poços profundos em Tamboril

Tamboril No dia 17 de outubro, o açude João José de Castro, construído em 1983, parou de abastecer o distrito de Sucesso, o maior desta cidade. A cobrança das contas de água também foi suspensa. O manancial, com capacidade de armazenar 10 milhões de m³, secou completamente pela primeira vez. O que restou foi um pouco de lama, onde centenas de peixes cará e branquinha se encontram mortos, muitas canoas abandonadas e uma porção de garças e urubus sobrevoando.

Os poços profundos que estão sendo escavados, quando concluídos, devem resolver o problema de abastecimento no distrito de Sucesso

O governador Cid Gomes observou pessoalmente a situação numa visita realizada no dia 4 de outubro e, de forma emergencial, o governo do Estado liberou uma verba de R$ 250 mil para que fossem cavados cinco poços profundos.

"Infelizmente, tivemos que chegar a essa situação que aflige, não só Tamboril, mas todo o Nordeste para que o problema da água em Sucesso fosse definitivamente resolvido. A partir de agora, não dependeremos mais da água do açude. Os poços serão suficientes para abastecer a população daqui. O açude passará por um assoreamento e ficará como uma reserva hídrica do município", garante o prefeito Jeová Mota.

Inicialmente, um poço foi interligado à Estação de Tratamento (ETA), a dois quilômetros de distância. Um outro foi ligado diretamente à rede de abastecimento na Rua Ferreira Pinto.

De acordo com a Prefeitura, são necessários 20 mil litros por hora para abastecer o povoado sem que seja necessário retirar água do açude.

"Com a escavação dos poços, a nossa projeção é de que, quando todo o serviço tiver sido concluído, atingiremos não só essa meta como teremos uma reserva de 10 mil litros por hora para atender à população numa necessidade", assegura o prefeito de Tamboril". (FM)

Mais de 800 mil pessoas atendidas
Mais de 800 mil pessoas estão recebendo água por meio de carros-pipa no Ceará. A Coordenadoria Estadual da Defesa Civil do Ceará está atendendo a 105.131 mil pessoas em 1.132 localidades com 95 veículos em 28 municípios. Já o Comando da 10ª Região Militar, está responsável pela distribuição em 94 cidades com 706 caminhões para entregar água para uma população de 729.236.

De acordo com o Ioneide Araújo, assessora técnica da Defesa Civil Estadual, até o dia 5 deste mês, 174 municípios do Estado estavam oficialmente em situação de emergência. Segundo o Ministério da Integração Nacional (MIN) o número é de 175. "Temos mais quatro que estão em processo de organização da documentação para formalizar o estado que são Horizonte, Barbalha, Uruburetama e Juazeiro do Norte, já reconhecido pelo Governo Federal, mas quando o decreto do governador saiu ainda não estava confirmado", explicou.

A assessora afirmou ainda que está sendo providenciada a renovação do decreto da situação de emergência, mas 80 municípios ainda não tinham enviado a documentação até o último dia 5. Mandamos e-mail para cada um deles solicitando e não recebemos retorno até agora".

Fiscalização
O Exército esclareceu que a água distribuída é coletada nos pontos de abastecimento da Cagece e em outros mananciais. Segundo o Comando da 10ª Região Militar, os veículos integrantes do Programa são inspecionados para que não haja desperdício de água e também é verificado à quantidade e qualidade. (ER)

FERNANDO MAIA
REPÓRTER

Um comentário:

  1. UM ESTADO QUE SE MOSTRA TÃO RICO, INTERESSADO NO TURISMO, NÃO CONSEGUE LEVAR ÁGUA TRATADA PARA SEUS MORADORES. E ESTA EMPRESA DE ÁGUA (SUJA) AINDA COBRA POR UM ABASTECIMENTO INEFICAZ. ONDE ESTÃO OS ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO?

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