domingo, 22 de maio de 2016

Especial. O que desejam os estudantes que ocupam as escolas no Ceará

Fonte: http://www.opovo.com.br/
22/05/2016
Ocupando cerca de 50 escolas no Estado desde o fim de abril, estudantes tentam inventar um outro modo de fazer política num momento de grave crise no País


FOTO MATEUS DANTAS
FOTO MATEUS DANTAS
Estudantes da Escola Estadual Humberto Castelo Branco, no Montese. Jovens se dividem entre serviços e realizam oficinas enquanto discutem política e tentam se organizar de formas alternativas. Ocupação, para eles, é história
Vista da rua, na manhã da última quinta-feira, a escola Humberto Castelo Branco, no Montese, parece vazia. Do lado de fora, não há sinal do burburinho dos alunos chegando para o primeiro turno das aulas. Lá dentro, porém, a unidade acordou cedo. Antes das 9 horas, Mara Régia de Almeida Mendonça atende a porta da escola. De cabelos tingidos de lilás e óculos azuis, a adolescente de 16 anos ainda estava sonolenta. Pela primeira vez, havia dormido no colégio. 

Essa tem sido a rotina de estudantes secundaristas que ocuparam cerca de 50 unidades educacionais no Ceará desde o fim de abril, quando estourou a greve dos professores. Eles se revezam na limpeza do espaço, fazem pequenas reformas, organizam grupos de estudos e realizam oficinas artísticas. Também pedem mais verba para a merenda e passe livre estudantil. 

São jovens com idades entre 15 e 20 anos e um discurso que ecoa os movimentos que explodiram noutras capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo, onde dezenas de colégios foram ocupados em protestos contra a baixa qualidade da merenda. Mas não apenas. Essa nova geração também tenta encontrar respostas num momento de grave crise política no País.

Na última semana, O POVO visitou duas escolas ocupadas para saber o que pensam os estudantes. Na fala de muitos, algumas características se destacam, como a rejeição à institucionalidade e aos partidos, formas alternativas de organização social, a resolução de conflitos pela via do consenso, o respeito à diversidade, a autogestão e um senso crítico refinado. 

Aluna do 1° ano do Ensino Médio, Mara Régia representa a ocupação em reuniões com outras escolas, mas dispensa o rótulo de líder. “Em um movimento de muitos, em que está todo mundo lutando pela mesma coisa, a gente não precisa de líder”, afirma.

Na Escola Adauto Bezerra, no Bairro de Fátima, ocupada em 4 de maio, os estudantes priorizam a “horizontalidade e a paridade de gêneros”. Segundo Juliana Costa, 17, aluna do 3° ano, “desde o cardápio até a continuidade da ocupação”, tudo é decidido em assembleias. “A gente vai aprendendo a usar o bom-senso, e isso pode ser usado para outras coisas. Para o sistema político, por exemplo.”

Também aluno da Adauto Bezerra, Matheus Lopes, 17, acredita que a ocupação é um ato político. “Muitas vezes os nossos representantes não nos representam. Isso aqui é outra forma de protagonismo”, avalia.

De acordo com Mara Régia, a maioria das ocupações é autônoma. “A gente aceita apoio, como doações, mas não quer ser cooptado (por partidos). Muitas dessas instituições são oportunistas”, critica. Para ela, a ocupação “não é política, mas é história”.
Assista a relatos e depoimentos de estudantes que ocupam escolas no Ceará.
O POVO online
O POVO visitou duas delas na última semana e conversou com os alunos sobre o momento político do Brasil e as formas de organização nas quais acreditam 

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